Blog

Sobre o cenário atual do Sagrado Feminino – Para refletir

Por Patricia Fox Machado, 2016

Tribo de boa vontade,

Compartilho uma reflexão que parte da minha experiência REAL de mais de 25 anos de prática e pesquisa da Espiritualidade Feminina.

Essa minha visão não tem a ver com nenhuma espécie de “protecionismo” ou ainda uma postura hermética sobre os temas que envolvem o Sagrado e a Espiritualidade Feminina. Não se trata de “problematização”, mas de uma motivação de que precisamos falar sobre algumas coisas. Pra quem acha que escritos com mais de três parágrafos tipificam “textão”, fique tranquila – o teor da reflexão não parece ser pra você, rs.

Pra contextualizar, vou falar um pouco sobre a minha experiência. Em toda a minha trajetória, sempre compartilhei o Conhecimento que busquei e me foi dado pela Vida nos cursos, videos, palestras e círculos que conduzi. Mas tenho refletido se isso é realmente algo positivo nestes tempos de tanta gula e sede desenfreada por informação (que, erroneamente é tida por muitos como Conhecimento). O Conhecimento acessado de forma superficial, não passa de informação que jamais se transformará em Sabedoria. Carinho e respeito são necessários para o processo de maturação do Saber.

E sabem com quem aprendi isso? Com as minhas “veinhas”, as avós, benzedeiras, rezadeiras, professoras, mestras em um Saber que corre nos ossos… e que passaram por muitos desafios para que sobrevivessem no imaginário e cotidiano. E a maioria delas não sai simplesmente distribuindo o saber que está dentro delas. Todas as vezes em que me deparei com elas (e foram muitas e espero que muitas mais), elas me olharam no fundo dos olhos… buscando um reconhecimento. Só depois viria o elixir chamado partilha. Levo isso como parâmetro nos momentos em que sou eu quem compartilha o elixir. 


(Parenteses: estou falando especificamente sobre a relação instrutora/aprendiz e não sobre atuar como curandeira.
Apesar de não se negar uma reza quando solicitada, a boa curandeira também reconhece seus limites, ou seja, encaminhar pessoas que não podem ser ajudadas por ela especificamente, faz parte da ética. Mas isso é para um outro papo).

Voltando…

Já houveram experiências infelizes no passado em que pessoas mal intencionadas buscaram meus cursos e atividades somente para “ver como que era”. Estas pessoas não queriam Conhecimento para nutrir sua própria inspiração e criatividade, mas sim, precisavam de um “modelo”, algo para simplesmente reproduzir. Buscavam algo que, na realidade, é impossível de se dar (ou receber) quando falamos sobre inspiração e criatividade.

Por outro lado, eu tenho o privilégio de conviver e observar gente MUITO PREPARADA e HONESTA que passou pelas minhas aulas e faz parte dos círculos que conduzo. Algumas delas, eu conheci ainda adolescentes e hoje são “mulheres feitas” (algumas com mais de 30 anos) e que são nobres agentes de cura e saber. E eu sou grata por fazer parte da trilha de cada uma delas de alguma forma.

OS CÍRCULOS DE MULHERES

Em específico sobre a condução de trabalhos com os círculos de mulheres, tenho muito orgulho de mulheres maravilhosas que trilharam a Formação idealizada e coordenada por mim desde março de 2014, data do início da primeira turma da Formação. A maioria das condutoras que vivenciou a jornada está desenvolvendo trabalhos lindos, cheios de originalidade e condizentes com o que cada uma já carregava previamente em sua própria história de vida e bem-aventurança. O feedback que tenho delas é que a Formação as ajudou a serem quem elas são em essência e não simplesmente as preparou para conduzir círculos. Além de que, algumas delas recuperaram a confiança na caminhada pela espiritualidade, visto que algumas estavam vindo de experiências traumáticas tidas com certos grupos/abordagens do Sagrado Feminino (como abuso de poder e assédio de supostas “sacerdotisas”).

Em todo o processo de concepção da Formação (que levou praticamente dois anos para ser “parido” entre o “primeiro sopro” até a manifestação concreta do curso), além do conteúdo, eu sabia que era necessário haver um processo de seleção das alunas e do preparo de um TCC (trabalho de conclusão de ciclo). Sabia também que isso poderia ser mal-interpretado, visto que há uma falsa noção no meio espiritualista de que o CAMINHO da cura é para tod@s. O POTENCIAL DE CURA ESTÁ EM TODA ALMA E É PARA TOD@S. No entanto, a MANIFESTAÇÃO E MANUTENÇÃO DESTA POTÊNCIA exige de quem abraça o caminho: perseverança, humildade constante e firmeza de propósito, pois estar a serviço da Cura é naturalmente desafiador. Querem exemplos? Leiam os mitos e pesquisem sobre as pessoas que adentraram profundamente nas matas selvagens (como diria C. P. Estés) da CURA.

Como eu sempre falo: jogar sementes na terra não é nada complicado. O desafio é vivenciar toda a complexidade do brotar, crescer, florescer, frutificar, decair, virar semente e reiniciar o processo que envolve a vida-morte-vida, ou seja, a ciclicidade.

Na minha visão, há de se refletir e se posicionar sobre o preparo e estrutura de quem vem se propondo a conduzir trabalhos relacionados com a Cura do Feminino. Muitas vezes, pessoas se colocam nesta posição de grande responsabilidade após, simplesmente, ler um post na web, folheado um pequeno livro ou manual “como fazer”, participado de um círculo ou “grande encontro” ou ainda pago por “iniciações” de um final de semana que, sem critério algum, nomeiam guardiãs, abençoadoras, sacerdotisas e curadeiras. Disfarçadas de uma ampliação de saberes, essas propostas me soam mais como uma rentável indústria do que eu chamo de “tradição de prateleira”. Afinal, se o critério é “se interessou, pagou, participou, iniciada está” conseguimos fazer uma analogia perfeita com uma produção industrial típica de nossa sociedade pautada no consumo/reprodução. 
Pelo o que temos visto, a grande maioria destas propostas não possui ancestralidade, fundamento aprofundado ou campo espiritual fortalecido. Com o argumento de que “canalizaram” o Sagrado Feminino (seja lá o que concebem como Sagrado Feminino), repetem-se fórmulas prontas que mais parecem “esquizoterices” colhidas de obras de ficção de gosto duvidoso e até mesmo seriados de televisão. Apropriam-se de conceitos usando-os de forma genérica, compartilha-se imagens que mais parecem editoriais de moda, propõe-se fácil e rápido acesso ao “poder” e, voilá: o produto está lançado no mercado.

Das supostas lideranças e “grandes sacerdotisas” que desonestamente inventam títulos iniciáticos, passando pelas mulheres que enxergam o servir como uma “oportunidade profissional” dentro da lógica industrial, e chegando àquelas que aceitação em relações codependentes – o tal “Sagrado Feminino” virou a bola da vez no ponto de vista mercadológico. O problema maior: a falta de seriedade a profunda desonestidade intelectual/emocional/espiritual presente em muitas das propostas.

Se alguma jurista fosse analisar esse quadro, talvez pudesse citar aqui: falsidade ideológica, estelionato e até mesmo exercício ilegal da profissão, visto que algumas destas “lideranças” se apresentam como, por exemplo, psicólogas e “dr. Fulana de tal” sem terem frequentado ou concluído nenhuma formação universitária na área, possuírem registros ou terem uma tese defendida. O paradoxo: se despreza os estudos formais para supervalorizar o (essencial) saber intuitivo, mas ao mesmo tempo necessitam “apresentar” títulos formais nunca conquistados (e eu pergunto: “cadê” os currículos lattes?).

Outra questão que envolve esse tema é a profusão de plágios e uso de trechos inteiros de livros e falas sem citação das fontes. Que nome poderíamos dar a isso além de desonestidade?

Essa forma de popularização e postura de caráter duvidoso vêm acompanhada de uma banalização que, claro, é prejudicial ao movimento, pois é destituída de coerência e profundidade. Uma espécie de “greenwashing” espiritual parece estar em curso. Para quem não sabe, “greenwashing” é um tipo de estratégia de grandes empresas que se apropriam de conceitos relacionados com a preservação do meio-ambiente para disfarçar os danos causados por elas próprias.

O simplismo substituindo a simplicidade.
O ilusionismo tomando o lugar da magia.
A artificialidade de coroas de flores industrializadas decorando a cabeça das mulheres sem consciência de suas raízes.
A padronização de sentimentos e dos ciclos sobrepondo a diversidade e as particularidades tão únicas de cada mulher e experiência. 

Essas são algumas das questões que observo.

Uma das coisas mais preocupantes: quem está no caminho com uma séria intenção e compromisso com a jornada, acaba por se sentir mal, constrangida, inadequada. Algumas pessoas se afastam e nem mesmo querem ouvir ou falar sobre “Sagrado Feminino” ou “círculo de mulheres”, pois não querem ser “colocadas no mesmo balaio” de tanta bobagem. O que eu digo: reflitam, pois há outras formas de mudar essa situação. Questionar, esclarecer, se reapropriar daquilo em que acreditam, buscar comunicação com grupos e pessoas sérias são possíveis opções.

Ainda sobre a banalização do processo para se tornar uma curadora/curandeira/condutora: 
Sim, temos que “começar do começo”, todo mundo erra. “Ninguém nasce sabendo”, obviamente. Experimentar faz parte da trilha, mas, diferente de três décadas atrás, hoje temos mais informação disponível, mas também há muita desinformação. Desinformação é uma das mais destrutivas formas para banalizar algo importante.


Algumas de vocês podem não saber, mas o movimento de Espiritualidade Feminina faz parte de um processo em que pessoas desbravaram territórios fechados antes de quem está “chegando agora” e estas pessoas (ancestrais, pois trilharam antes) trazem na Alma um conhecimento empírico que pode ser muito útil para acessar o tesouro que é adentrar no universo do Sagrado. Porém, a impressão que tenho é que falta humildade em muitos casos e isso impede ou atrapalha a necessária interdependência para que a roda gire de forma fluída. O que fica então, são as frágeis relações CO-DEPENDENTES. Projetam-se ídolos sedutores e espetaculosos (com seus visuais estereotipados, posturas previsíveis e palavras de efeito) e que seguem uma ética pré-estabelecida típica de fals@s gurus e falsas “grandes sacerdotisas’ que ainda estão apegad@s às estruturas hierárquicas verticais não-orgânicas.

Outra questão importante: ter o oficio de curandeira ou instrutora como ganha-pão é um problema? Penso e sinto que não é. O importante é forma… é a seriedade das propostas… é buscar um ritmo saudável para que as coisas aconteçam se sejam vivenciadas. Nunca tive vergonha de gerar meu dinheiro e criar recursos através do meu trabalho com a Espiritualidade Feminina. Sou filha de artistas – músicos profissionais – e vem daí a naturalidade para conceber ARTE E TRABALHO como aspectos da vida que estão diretamente envolvidos. Estudei e estudo MUITO para poder ensinar e isso, obviamente, exige recursos, esforço e tempo. Mesmo minha carreira acadêmica é ao meu caminho pela Espiritualidade Feminina e, para mim, é essencial que seja. O Conhecimento intelectual é imprescindível, possuir dons naturalmente herdados é uma benção, mas a experiência de vida e o mergulho na CURA DE SI (interna e eterna) são essenciais para que alguém esteja estruturada para contribuir na cura de outras pessoas e do mundo.  Além do mais, nunca abandonei a cadeira de “aluna” ou deixei de ser “cuidada” (terapêutica e espiritualmente). Questão de bom-senso e também porque fui instruída sobre isso.

Eu postei em meu perfil uma frase que adorei e que foi dita em outro contexto, mas que cabe nesta reflexão:

“A Barbra Streisand tem aulas de canto até hoje.”

Pra quem não a conhece, ela é simplesmente uma das maiores cantoras da cultura pop, com quase 60 anos de carreira. Creio que não preciso explicar mais nada sobre humildade e eterno aprendizado, né mesmo?

Eu poderia escrever muito mais sobre o tema, mas, em resumo:

– O Sagrado Feminino é algo complexo que precisa ser acessado de maneira progressiva e num ritmo saudável (sem imediatismo). 
– Abrir um círculo ou conduzir um trabalho de cura exige preparo, responsabilidade, humildade e tempo de maturação.
– Conteúdos despertos em círculos e trabalhos de cura reverberam, ou seja, quando despertos, precisarão de cuidado e atenção posterior. 
– Uma mestra/professora/instrutora TAMBÉM tem o direito (e o dever) de escolher com quem compartilhará seu Saber.
– Nem sempre o que parece ser é o que é. Não se deixe enganar por currículos extensos e pomposos, mas que não tem validade. Averigue as informações divulgadas, exigindo inclusive comprovação de títulos acadêmicos, histórico dos processos iniciáticos e tempo de experiência.
– Com a popularização (nem sempre de maneira positiva) do chamado “Sagrado Feminino”, temos visto similaridades entre os nomes e descrições dos trabalhos divulgados sobre o tema, contudo, isso não condiciona uma relação entre a maioria deles. Pesquise e peça referências confiáveis sobre as propostas divulgadas. 
e FINALMENTE:
– A Espiritualidade Feminina, o Sagrado Feminino e os círculos de mulheres não são entretenimento!!!!

Que Sophia nos guie nos giros, ciclos, desafios e bençãos do Conhecimento e do Sabedoria.
Em paz e com confiança de que a Espiritualidade Feminina é forte o suficiente para resistir em meio a tanta banalização, compartilho.

Patricia Fox Machado – 29/11/2016 – inspirada pela lunação em sagitário.

*revisado brevemente em fev/2019.

*na imagem: uma das obras que compõem as visões de Santa Hildegard Von Bingen – abadessa beneditina (século XII), doutora da igreja, mulher de medicina e uma das minhas musas inspiradoras há mais de 20 anos.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close